Dezembro de 2026 e janeiro de 2027 podem produzir efeitos diferentes
Considere uma empresa que planeja comprar um equipamento destinado à locação e tenha condições de realizar a aquisição em dezembro de 2026 ou janeiro de 2027.
Do ponto de vista econômico, as duas alternativas podem parecer semelhantes. Tributariamente, porém, podem apresentar diferenças importantes.
Se a aquisição ocorrer até 31 de dezembro de 2026, será aplicada a sistemática vigente naquele momento.
Considerando um crédito calculado à alíquota de 9,25% de PIS e Cofins, apropriado em 48 parcelas, uma compra realizada em dezembro poderá gerar apenas uma parcela de crédito antes da mudança para 2027.
As outras 47 parcelas permanecerão como créditos remanescentes da sistemática anterior. Elas não se transformarão automaticamente em um crédito integral de CBS no início de 2027.
Já uma aquisição realizada dentro da nova sistemática poderá apresentar comportamento tributário diferente.
Por isso, esperar chegar janeiro para discutir o assunto pode ser tarde. A decisão sobre o investimento pode ter sido tomada meses antes.
Planejamento tributário também passa pelo calendário de investimentos
Tradicionalmente, quando se fala em planejamento tributário, é comum pensar na escolha de regime, em reorganizações societárias ou na análise de determinadas operações.
A Reforma Tributária amplia essa visão.
Para determinadas empresas, uma pergunta aparentemente operacional poderá ter grande importância tributária:
Quando é melhor realizar o investimento?
Imagine uma locadora planejando aplicar R$ 2 milhões na renovação dos equipamentos utilizados em suas operações. Se houver flexibilidade para fazer a aquisição no final de 2026 ou no início de 2027, a análise não deveria considerar somente preço, disponibilidade e efeitos contábeis.
O impacto tributário da data da aquisição também precisa entrar na avaliação.
Isso aproxima o calendário fiscal do calendário de investimentos e torna a participação do contador ainda mais estratégica.
O impacto no fluxo de caixa também precisa entrar na conta
Outro elemento importante nessa análise é o split payment.
Na nova sistemática, parte do tributo poderá ser segregada no momento da liquidação financeira da operação. Isso pode gerar preocupação com o fluxo de caixa, especialmente para empresas de locação.
Porém, analisar apenas o valor segregado não mostra toda a situação.
Se a empresa realizou recentemente uma aquisição relevante de ativos e possui créditos expressivos de CBS, o valor efetivamente devido poderá ser menor do que o montante inicialmente segregado.
Nesse contexto, entra também a sistemática de ressarcimento dos valores.
Portanto, a pergunta não deve ser apenas quanto será retido. É necessário avaliar qual será a posição líquida entre débitos e créditos após os investimentos planejados.
O contador precisa conhecer os planos da empresa
A nova realidade exige uma mudança na forma de acompanhar o cliente.
Para uma empresa de locação, será importante saber se existem planos para comprar equipamentos nos próximos 12 meses, substituir ativos, abrir uma unidade, ampliar a capacidade de locação ou adquirir máquinas.
Também será relevante identificar se existe liberdade para antecipar ou postergar determinados investimentos.
Essas informações podem não aparecer no balancete. Muitas vezes, estarão em uma conversa com o empresário.
Por isso, a Reforma Tributária aproxima a contabilidade das decisões operacionais e estratégicas da empresa. O profissional que conhece o investimento antes de sua realização pode participar da decisão, e não apenas registrar seus efeitos posteriormente.
Isso não significa simplesmente esperar até 2027
É importante evitar uma conclusão automática de que todos os investimentos devem ser adiados.
Uma empresa pode ter uma necessidade operacional imediata. Também pode existir uma oportunidade comercial, uma condição melhor oferecida pelo fornecedor, financiamento disponível ou um retorno capaz de compensar eventual diferença tributária.
Além disso, devem ser considerados o regime tributário, a natureza das operações, o perfil dos clientes, a estrutura de créditos, a margem e o fluxo financeiro da empresa.
Por isso, a melhor abordagem é simular cenários.
A aquisição pode ser analisada em diferentes momentos: outubro de 2026, dezembro de 2026 ou janeiro de 2027.
Em cada cenário, é necessário observar o crédito gerado, o impacto no caixa, a receita adicional proporcionada pelo ativo e o custo de esperar.
O objetivo não é simplesmente adiar investimentos, mas entender qual alternativa apresenta o melhor resultado para aquela empresa.
A Reforma Tributária começa antes da primeira apuração
Um dos principais erros seria imaginar que a Reforma Tributária só começa quando chegar o momento de calcular os novos tributos.
Para muitas empresas, seus efeitos começam antes: quando alguém decide comprar uma máquina, renovar uma frota, assinar um contrato, expandir uma operação ou escolher entre investir imediatamente ou esperar alguns meses.
O efeito tributário pode aparecer posteriormente, mas a decisão que o originou já terá sido tomada.
Por isso, empresas de locação demonstram bem a importância desse novo raciocínio. Não basta conhecer a alíquota da CBS. É necessário compreender como o crédito nasce, quando poderá ser utilizado e como ele se relaciona com os investimentos e o fluxo de caixa.
A grande oportunidade para a contabilidade está justamente aí: participar da decisão antes que a nota fiscal chegue.
